sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Síndrome de Sexta-Feira


O dia amanheceu como todos os outros. As pessoas vestem as mesmas roupas, e comportam-se com uma euforia um pouco mais aguçada. Começam os planos intermináveis como se segunda-feira não fosse chegar daqui a pouco...Se informam da previsão do tempo. Tiram dinheiro da conta bancária.
Diga-se de passagem que eu não faço parte dessa manifestação de sexta-feira, meu bem. E você sabe bem o porquê. Não há diferença entre os dias da semana se tudo o que me acontece de melhor eu faço em todos eles: sonhar com você.
Não há presença, pele, nem convites. O que me convém não me vem. Quem eu quero não me tem. E é nesse impasse que vivo:  é tudo normal de segunda à domingo até que você me prove o contrário.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A moça do sonho


Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais

Chico Buarque 

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

De uma só vez


Quando o que eu quero é ir embora, a tal da esperança agarra-se aos meus pés, impedindo que eu avance de uma vez por todas. Mas apesar de paralisada, sei o que o tempo se esvai cada vez mais rápido... 

...e eu tenho pressa, pressa de virar as costas, ir embora.

E isso sempre acontece por causa de um espaço que foi reservado, mas não preenchido. Por uma frase que não era pergunta, mas que nas entrelinhas esperou uma resposta.

Eu vou virar as costas uma só vez. E não vou voltar.

É que enquanto você sonhou com um mundo melhor, eu fui a parede para amortecer as conseqüências das suas aspirações. Fui eu quem acendi a luz quando você pensava estar cego, e também fui eu que a apaguei quando a verdade desse mundo te doía. 

Eu já estou quase por passar a porta...

Faço figas com os dedos que encontram-se dentro da minha blusa de moleton, para quem Sabe você me puxe pelo braço e me questione uma só vez como é que tudo está dentro do meu peito. E eu não me pouparia em dizer o quanto dói saber que você é a faca cravada, que me perfura cada vez mais adentro toda vez que tento me agarrar a um fio de esperança de me saber forte se o dia amanhecer sem você. 

Eu já passei da porta. E o vento que bateu a fechou lhe poupando o trabalho. 

E se puder feche as janelas, faça uso das cortinas. Não quero em um ato de fraqueza voltar correndo para os teus braços de anjo que tanto sabem me acolher.
Levo na bagagem nosso amor tranqüilo. E vou deixar que o mesmo vento que te trouxe, te leve para onde suas asas quiserem. 

Adeus amor.
 
Obs.: é que meus ouvidos teimam em manter-se atentos na espera de mais um sussurro.

Sem ínico e sem fim.

Ela sabia dos inúmeros compromissos que ambos tinham para o dia seguinte: um trabalho a comparecer, formalidades a cumprir, algumas pessoas a encontrar. Certo, que nada disso os despertava a vontade, mas apesar de poetas loucos eles se sabiam comuns. 
Mas ela não conseguia dormir. A chuva caía insistentemente lá fora, a música em volume baixo dançava naquele quarto sob a luz de um abajur. Já foram um, dois, três comprimidos. Já foram quatro, cinco, seis músicas. Até a chuva já cessou, mas as memórias não davam trégua, a saudade não desistia, e o aperto no peito só pedia mais e mais do que não se podia.
Como ele pôde? Era tão simples lhe dizer que nada fazia mais sentido, que estava a sonhar com outra pessoa, tão diferente dela. Como ele pôde, falar de sentimentos que talvez nunca tivesse sentido.
Pegou as chaves do seu carro. E saiu. Bateu à porta dele. “E se ela atendesse, o que lhe diria? E se não tivesse ninguém em casa o que faria?”
Ele abre a porta. Podia se sentir o cheiro do café casa adentro. Existiu o convite para que ela entrasse.
“Satisfeita por me trazer aqui, tola, sem sentido e sem nenhum discurso convincente?”  Discursava ela com a saudade.
Juntos tomaram um café, logo ela que odiava café. Nenhuma palavra foi trocada. Um abraço tomou conta, as xícaras foram deixadas na mesa, e a cama ainda arrumada os convidava. Nada fazia sentido,e é justamente a falta de sentido que torna tudo assim, tão verdadeiro.
Não espere o final da história, afinal, se tudo foi tão improvável desde o começo, não cabe a mim trazer o fim.

Olha

Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei prá mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor
 
Roberto Carlos

Da noite que não passou

Hoje o dia não quer amanhecer, e há muito que as estrelas já se foram deste céu. E já passaram horas e horas desde que a madrugada se foi, mas o dia insiste em ser noite. Deixa-se então de seguir o ciclo, quebra-se aí a rotina. Vive-se então como coração dos apaixonados, cheio de vontades. Mas uma hora há de amanhecer, afinal, acordaremos algum dia. 

Só levanto quando o mundo clarear. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Sutilezas

Não teimo em perguntar sobre a vida de alguém, com a pretensão de que com respostas saberei tudo a respeito dela. Palavras não são tão reveladoras assim. Tantos "eu te amo" já foram ditos para quem não se amava. Tantas palavras ácidas foram ditas para quem queriamos bem. Palavras já não dizem nada, são apenas desabafos momentâneos, que correm o risco de serem mentiras inventadas, recriadas ou até mesmo sem intenção.

Sendo assim, a verdade é descoberta com sutilezas. Quer saber se te amo? Repare nas entrelinhas... no não dito. Como meu sorriso se mostra quando te vejo; como meu corpo teima em encostar no seu; se as pupilas dilatam e se fico sem graça quando falamos de amor; se me informo a respeito das coisas que você gosta apenas para tornar a conversa atraente. É simples. É tão simples reconhecer gestos, e as pessoas teimam em sofrer por palavras. Tanto pelas ditas, como as não pronunciadas.

Deixe que os olhos falem. Que o coração enxergue. E que o amor SENTIDO pulse vida.
Só vejo beleza no que me fala sem som algum.